Deixa de ser meu espião

Ontem me senti seguida e vigiada. Todos meus passos calculados e comparados com anteriores. Risadas medidas, avaliadas (seriam verdadeiras?). Mas quem me espionava buscando passos em falso não tinha nada de secreto. Ostensivamente me vigiava. E imitava você. Como pode um detetive interferir com o objeto da investigação? E como podia eu agir naturalmente com você ali me olhando? Não era bem você, sabe? Os olhos eram diferentes, ainda que tivessem o mesmo jeito maroto (desculpa, não tinha outra palavra, bem lembro como a gente odeia essa que remete a grupos de pagode). Mas ele dizia as mesmas palavras que você e tinha o mesmo ritmo no falar. Não era você, mas eu tenho certeza do seu dedo ali no meio. Você treinou o espião. Na verdade o sabotador. Queria me colocar no chão novamente, logo agora que me recupero dos seus olhos marotos, seu sorriso fácil e sua fala encantadora.