Silêncio

O silêncio não me incomoda
Aqui dentro sempre faz barulho

Lindos, leves
Frágeis
Finos, cantantes
Pequeninos
Naturais, verdadeiros
Meus meninos
Que Deus os proteja
do sol forte, das intempéries
e de todos os males
Que estejam sempre prontos a voar
com suas asas brilhantes
a enfeitar meu horizonte

Convite
Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.
Só que
bola, papagaio,pião
de tanto brincar
se gastam.
As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.
Como a água do rio
que é água sempre nova.
Como cada dia
que é sempre um novo dia.
(José Paulo Paes)
José Paulo Paes nasceu em Taquaritinga SP, em 1926. Estudou química industrial em Curitiba, onde iniciou sua atividade literária colaborando na revista Joaquim, dirigida por Dalton Trevisan. De volta a São Paulo trabalhou em um laboratório farmacêutico e numa editora.
“Na poesia como na vida, José Paulo Paes optou sempre pela discrição e o comedimento de quem desconfia das exaltações visionárias e das certezas inabaláveis. Ao seu primeiro livro deu o título de O aluno. Seu último poema, escrito na véspera da morte, chama-se “Dúvida”. Ser poeta para ele era um modo de continuar até o fim sua busca de aprendiz. Em vez da retórica elevada, José Paulo adotou o tom menor do bom humor e da observação tão concisa quanto arguta” Rodrigo Naves

Na ânsia de uma reviravolta na vida, troquei os pés pelas mãos e chutei quem eu deveria abraçar.
*****
Há um fantasma me perseguindo
Não sei seu nome
nem quando, onde e como morreu
Nem mesmo tenho certeza que ele está me rondando
Às vezes parece que está dentro de mim
Toma meu corpo e me faz agir assim
Pensando melhor, deve ser um espírito de porco…